segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Juntação total de bens

A expressão que se usa para falar de um casal que passa a morar sob o mesmo teto é "juntar as escovas de dentes", mas na verdade as escovas de dentes são a parte mais fácil do processo. Basta que não sejam iguais, e pronto, estão juntadas. Juntar o resto é que não é fácil, principalmente, as manias...

Para evitar qualquer tipo de atrito, potencializado com a bagunça que é uma casa nova, com caixas espalhadas pela casa toda, prefiro falar de outro tipo de "juntação". Juntação de livros.

Foram 16 caixas de livros. Algumas pérolas, sem dúvida, e uma ou duas caixas de livros que não sobreviveram. A caixa um, aqueles que não há nem titubeio, vai para reciclagem (de onde nunca deveriam ter saído) e a caixa dois: aqueles que a gente não quer mais guardar, mas sente uma certa ligação, ainda que pequena, e decide doar para que outra pessoa decida se devem ou não voltar para reciclagem.

Os sobreviventes são cerca de 300 livros. Dos mais ecléticos possíveis e imaginários: "Simbiose e Ambiguidade", "Mario Covas", "The Billionaire who wasn´t", "Iliada", e muitos outros.

Diante da nossa biblioteca combinada, dois eram exemplares IDÊNTICOS, vindo de duas casas, de dois gostos completamente distintos: "Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?" e "O amor de mau humor".

Agora, ao invés de terminar a arrumação, minha concentração está dirigida a tentar entender o significado destes livros. Tento entender por que ambos tinham estes livros. Talvez achássemos que merecíamos coisa melhor. Talvez agora, certos que fizemos escolhas melhores, que coisas boas acontecem conosco (que também somos pessoas boas na maior parte do tempo) e que sabemos amar de bom humor, podemos jogar estes dois livros (ou quatro exemplares, já que são repetidos) na caixa um ou dois.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Parede berinjela

Hoje é o último shabbes que passo neste apartamento. Acendi as velas e me lembrei do primeiro shabbes que fiz aqui, eu comigo mesmo, que é o que este apartamento sempre significou para mim.

Estou um pouco nostálgica de deixar este apartamento, mas o sentimento predominante é de muita felicidade.

Ter vindo morar aqui foi uma das melhores coisas que já vivi. Ter a minha casa, ter a realização de ter conquistado isto. Fazer tudo do meu jeito, descobrir qual era o meu gosto para cada item, ter a liberdade até de pintar uma parede de cor de berinjela.

Como me fez bem escolher cada item deste apartamento, a felicidade que foi quando soltei a frase: “estou preocupada com as cores” e a serenidade que me deu perceber que esta era a minha maior preocupação naquele momento!

Me lembro da sensação de dormir a primeira noite. Parecia que eu nunca tinha estado em outro lugar.

Como eu gostei do silêncio deste lugar, do meu silêncio, do canto dos passarinhos todos os dias, de ler o jornal na rede, de ficar aqui, onde estou agora, no escritório, na frente deste computador, de receber os amigos, de deixar a louça acumulada de dias, do meu canto oriental, de escolher as fotos dos porta-retratos, de falar no telefone andando pelo closet, de organizar os livros por assunto, de conhecer cada cantinho daqui.

É, uma fase está se encerrando agora e estou mais que pronta para um recomeço.

Vou, mas vou muito, muito feliz e muito certa de que vou ser ainda mais feliz do que fui aqui.

Eu saio daqui, melhor do que eu cheguei.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Caixa de Entrada

Esta semana ouvi uma conversa que me deixou bastante intrigada.
Era uma senhora, que passou por uma situação muito assustadora, bandidos entraram na sua casa, renderam a família e roubaram várias coisas. Felizmente ninguém foi machucado fisicamente.
Ela contava a história, obviamente em mais pormenores, e disse:
- "Coincidentemente, na MESMA hora do assalto, eu recebi um e-mail protetor de Nossa Senhora da Guadalupe".

Eu achei que não tinha ouvido direito: um e-mail?

E foi isto mesmo. De tempos em tempos, ela recebe um mail da Santa.

Eu fiquei muito aliviada pela proteção dela, surpresa com a coincidência de ter ocorrido simultanemante, feliz por não ter sido como minha amiga que estava com muitas coisas ruins ocorrendo com ela, foi se benzer, e enquanto tomava um passe, teve o carro roubado,mas eu fiquei também muito preocupada...

Por que eu não estou no mail list de nenhum santo?

Por que eu só recebo mensagens de medicamentos vendidos no Canadá, de lançamentos de imóveis em cidades que eu nem sei onde ficam, de tratamentos para aumento de pênis, de oferta de uma monte de quinquilharias?

E se eu receber um mail de santo, vou colocar uma faixa de agradecimento neste blog, pela graça alcançada.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Todos os nomes

Recentemente descobri que cada membro de minha família pronuncia nosso sobrenome comum de formas diferentes. Há espaço para um sotaque mais afrancesado, mais polaco ou totalmente abrasileirado, espaço para o M mais ou menos pronunciado, com som de N ou não, T mudo ou não tão mudo assim, somente um pouco fanho, etc.

Um dia destes, um dos meus primos, no check in da companhia aérea foi soletrar o sobrenome e a atendente interrompeu:
- Meu senhor, preciso do seu sobrenome, e não do código da reserva.

É verdade, temos que reconhecer que este sobrenome parece um código de reserva. Aqui, no Brasil. No check-in de alguma companhia do leste europeu, talvez um Souza pareça código de reserva. Muita vogal numa palavrinha tão pequena...

Eu sei que existe uma convenção para soletrar. Não estou me referindo a uma música infantil que falava: a de amor, b de baixinho, c de coração Estou falando de uma convenção que penso que deve vir da época do Telex.

A de amor;
B de bola
C de casa;
D de dado...

Me dei conta de que eu utilizo muitos animais para soletrar:
E de elefante, M de macaco (quando a maioria das pessoas, diz M de Maria), T de tatu, R de rato, mas o que me impressionou foi nesta semana, ouvir a seguinte forma de soletrar: T de tamanco. Tamanco? E não parou por aí... S de sapato. Fiquei estupefata. Fiquei pensando se será que é possível encontrar letras para todos os tipos de calçados! E de escarpin, C de chinelo, H de Havaianas! P de pantufas!

Me lembrei que um dia, uma pessoa do meu lado, no trabalho, tinha que soletrar algo, e a pessoa do outro lado do telefone era um tanto quanto limitada, o que fez com que quem soletrasse tivesse que repetir várias vezes, até que já muito impaciente gritou, pela última vez: B de Burro, J de Jumento...

sábado, 2 de outubro de 2010

Funilaria

Encontrei, hoje, uma anotação nos meus papéis:
Consertar a batida do carro? Batida sobre batida.

Imagino que deve ser referente à época em que me mudei de casa e bati o carro no pilar da garagem, logo na primeira semana.

Fui aconselhada a não consertar o carro, pois sendo a garagem nova e a motorista ruim, outras batidas seriam prováveis no curto prazo. Curtíssimo prazo. A lateral do carro ficou da cor do pilar.
Esperei ainda alguns meses para consertar o estrago. Depois de consertado e da adaptação à garagem, o carro manteve-se intacto até sua venda.

E curiosamente, esta anotação reapareceu para mim um dia depois de uma conversa com uma amiga querida. Basicamente falávamos de como às vezes até dá uma desconfiança quando tudo vai bem demais. E ela soltou uma frase que vai para o rol das memoráveis:
"A gente precisa saber que depois de se ferrar muito, um dia nossa vez chega!"
Eu adorei. Foi como uma funilaria reparadora de umas batidas antigas.
E foi também como uma funilaria preventiva de possíveis batidas futuras.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fim de carreira

Esta semana um colega de trabalho se aposentou.
Sob um fundo musical de "Quero ter um milhão de amigos", de Roberto Carlos, ele foi homenageado.
Seu discurso de despedida foi muito emocionante, além dele próprio, várias outras pessoas foram levadas às lágrimas.
Em linhas gerais, ele disse que há muitas empresas onde a gente começa nossa vida profissional. Cada vez que mudamos de trabalho, é um recomeço, mas que só há uma vez e uma empresa onde terminamos nossa carreira. Discursou sobre como era terminar sua carreira profissional nesta empresa, o que isto significava para ele. Falou que teve momentos muito felizes e outros muito difíceis, mas nunca infelizes.

Tenho conversado muito com ele, nos últimos meses, sobre sua aposentadoria. Ele me conta quais são seus planos para não ficar de pijama em casa, esperando a velhice tomar conta de si.
Deve ser um planejamento difícil este. Não se trata de algo temporário, entre um trabalho e outro, e sim uma nova forma de ocupar o tempo, misturando atividades e um total usufruto do tempo totalmente descompromissado, para sempre.

Fiquei pensando também, nas relações sociais. Ninguém mais se aproximará dele somente por interesse profissional. O interesse passa a ser 100% pessoal.
O assunto me parece tão interessante que confesso que fiquei com uma pitada de inveja quando me dei conta do tempo que falta para eu me aposentar...

domingo, 11 de julho de 2010

Burca

Fiquei fascinada com as mulheres de burca em Istambul. Se eu estivesse em um país onde todas as mulheres fossem obrigada a usar burca, talvez não tivesse ficado tão estarrecida. A Turquia é um país em que cada um veste-se do jeito que bem entender.

E muitas bem entendem, ou são bem entendidas por seus maridos e famíliares que devem usar burca.

Hoje no ônibus, eu estava ao lado de uma delas. Ninjas, como são chamadas, no Marrocos, pelas mulheres que não usam burca.

Fiquei tentando imaginar como será a vida destas mulheres.

Pedi para uma delas para tirar uma foto junto com ela. Ela ficou tentada, pareceu sorrir com os olhos, mas me disse: espere, vou perguntar se posso. Correu alguns metros, perguntou ao marido. O marido me olhou desconfiado, porém percebeu que eu era uma curiosa inofensiva e assentiu com a cabeça.

A moça que tinha mais ou menos a mesma idade que eu, voltou satisfeita e tiramos uma foto juntas. Mostrei a foto a ela, e embora não pude ver, tenho certeza de que ela sorriu, Pelo menos, assim fez com os olhos.

Pedi para outra. Ela me olhou, muito, mas muito surpresa e disse: Mas, por quê?

Expliquei a ela que no meu país nenhuma mulher se cobre, que era muito diferente para mim, ver uma mulher coberta. Ela disse que eu poderia tirar a foto. Não me pareceu ter sorriso.

Pedi para tirar uma foto com um grupo de adolescentes, cobertas com véus coloridos. Elas adoraram, todas riram, e aproveitaram para tirar foto comigo também.

Pedi a mesma coisa para um grupo de meninas cobertas com véus negros. Também toparam na hora, ajeitaram seus véus, e pediram para ver a foto. Ficaram se cutucando e rindo.

De alguma forma, tentei ficar perto destas mulheres tão diferentes de mim. Na mesquita, ficando próxima na hora em que elas rezavam, só me senti mais e mais distante.

A foto foi a única forma que consegui.