terça-feira, 14 de maio de 2013
Diário
Quase 1 ano sem escrever aqui. Quase 1 ano sem concentração para escrever.
O que tenho escrito neste tempo são cartas para minhas filhotas. Cartas em que conto a elas como estou me sentindo e como elas vão se desenvolvendo. Acho que elas gostarão de ler quando estiverem mais crescidas. Eu adoraria ler sobre minha infância.
Tenho guardado os meus diários dos 10 aos 16 anos. Escrevia todos os dias. Uma parte está em código e não lembro mais do código. As partes relacionadas aos garotos de quem eu gostava ou de sentimentos que tinha receio que alguém soubesse.
Não sei porque guardei estes diários por tantos anos. Devo ter folheado um ou outro algumas vezes nestes últimos anos. Me causam mais nostalgia e dor que risos.
Quero reler quando as minhas filhas estiverem nestas idades. Tenho a ideia de que entendendo melhor o que eu pensava nestas idades eu consiga compreende-las melhor. Ou pior. Vai saber...
Eu que escrevi diariamente por 6 anos, fiquei quase 1 ano sem voltar aqui. Não vou dizer que foi falta de tempo, não é verdade. Tive tempo para muitas bobagens na TV e no facebook. Vou voltar. Vou encontrar assuntos e voltar.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Profiteroles
Houve uma época, em um passado que embora pareça muito, muito remoto, não é tão distante assim, que fui a um encontro com um amigo de uma amiga. Com o passar dos anos, a memória falha, mas alguns detalhes são realmente inesquecíveis.
As referências eram muito positivas: bem apessoado, um homem muito culto, apreciador da boa leitura. Na ocasião, o descritivo pareceu suficiente e como gosto não se discute, melhor não ouvir os detalhes e ir ver com os próprios olhos do que se tratava.
Saímos para jantar. Cautelosa, preferi ir de carro, porque nunca se sabe quanto rápido pode ser necessária a fuga.
Conversamos muito, principalmente sobre literatura, alguns pouquíssimos e irrelevantes gostos em comum, pelo que me lembro.
A certa altura, o moço soltou a pérola... ele lia todos os dias 10 páginas. Não havia exceção nem consideração se o livro era bom ou ruim. Eram 10 páginas por dia, estoicamente.
Isto dava a ele, segundo o próprio, uma grande segurança, pois ele sabia, assim que pegava o livro nas mãos, quantos dias demoraria para lê-lo.
Com minha transparência habitual, e formação na área de psicologia, não pude disfarçar meu choque diante de tamanha obsessão (para ser fina e não escancarar: aberração).
Quando achamos que estamos no fundo do poço, vem o tatu e cava mais um pouco, e o sujeito conseguiu piorar a situação. Pediu de sobremesa uma porção de profiteroles.
Perguntou ao garçon quantos profiteroles vinham na porção. O garçon respondeu que 5.
Ele começou um discurso para convencer o garçon que ele precisava de 6 profiteroles, pois estávamos em dois e precisávamos dividir. Eu logo disse que 2 profiteroles eram suficientes para mim (frase inédita e única na minha vida), mas não houve jeito, o moço não se deu por vencido enquanto não conseguiu negociar mais um profiterole.
E então, veio o gran finale... ao terminar a porção, ele chamou o garçon e tentou conseguir mais um chorinho de profiterole!
Para mim, o inglório jantar não poderia se prolongar nem por mais um segundo...e soltei:
"não posso mais ouvir você pechinchando profiteroles! por favor, se você quiser mais, peça mais uma porção, eu pago!"
Que alegria ter ido com meu próprio carro!
terça-feira, 22 de maio de 2012
Cobras e lagartos
Tenho fobia de cobras. Não é de hoje, é de sempre. E parece que, ao longo dos anos, tenho ficado cada vez com mais e mais medo destes répteis.
As cobras fazem parte dos meus pesadelos mais assustadores, aqueles em que acordo com o coração disparado.
Meu medo de cobras sempre foi um pouco incompatível com o meu grande amor pela natureza. Apesar de odiá-las, temê-las, sempre fui ao encontro delas. Chapada Diamantina, Chapada dos Veadeiros, Pantanal, Serra da Canastra, do Cipó, Amazônia, Ilha do Caju, Bonito. Os passeios pelas cachoeiras e trilhas, pela linda natureza deste país sempre estiveram permeados por um olhar temeroso, uma procura por aquilo que não se quer achar, e que eventualmente aparecia no caminho.
O melhor lugar do mundo é Fernando de Noronha, aquela natureza exorbitante e total ausência de cobras na ilha. O paraíso.
O pior lugar do mundo é a Ilha do Cardoso. Foram 2 cobras (uma viva e uma morta) em 2 dias de passeio. No terceiro dia, fiz as malas e fui embora. Não preciso ficar nem um segundo em um lugar destes.
Trabalho na Barra Funda. Não é exatamente um lugar conhecido pela exuberância da natureza ao redor. Trata-se de um prédio, parte de um condomínio de 4, cada um com 20 andares. No térreo tem um jardinzinho sem graça. No escritório tem alguns vasos de plantas. Todos os vasos foram trocados há alguns dias. Na minha sala tem uma espécie de mini palmeira. O jardineiro vem toda semana fazer a manutenção. Ontem eu estava na sala e quando me virei, tinha em cima da minha mesa um bicho. Um híbrido de barata com grilo. Se eu estivesse em uma pequena pousada em Alter do Chão, talvez esperasse por isto. A surpresa foi enorme, convertida em um pulo. Chamei alguém para me socorrer e tirar o bicho.
Na sequência veio a moça da limpeza e eis que ela me contou que no dia anterior, de uma das plantas novas saiu um filhote de cobra! Filhote de cobra! Em plena Barra Funda! 15 cm de terror, segundo o relato dela! E ela ainda quis me mostrar a foto que ela e os bombeiros tiraram do bicho e que é claro que eu não quis ver! Fiquei estarrecida!
Passei o dia apavorada, mesmo depois de saber que os bombeiros examinaram tudo, que a empresa de plantas novas desmontou os vasos. Não há lógica para lidar com o medo, com o pavor. Não posso ver cobra nem na televisão. Outro dia, tomei o maior susto folheando uma revista com uma foto de cobra. E a perspectiva de ter uma cobra no meu ambiente de trabalho estragou o meu dia. Não compartilhei com ninguém do trabalho. Não quero estragar o dia, o sossego de mais ninguém. Vou viver o terror sozinha.
A única vantagem de morar em uma cidade cinza, poluída e feia era a certeza de não deparar com cobras no caminho! Certeza que foi pelo ralo.
Estou pensando em comprar um gavião para andar a tiracolo.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Prudência e dinheiro no bolso
Um amigo estrangeiro, visitando o Brasil decidiu ir para Prudentópolis. Nem sabia que esta cidade existia, no estado do Paraná.
Pergunto: Prudência é uma virtude ou uma característica dos chatos?
A cidade da prudência deve ser um lugar muito entediante.
Por um lado, os moradores de Prudentópolis certamente não se envolvem em acidentes de trânsito, tampouco acidentes domésticos. Ninguém joga uma bituca de cigarro na rua, não dão uma olhadela para a mulher do próximo, não arriscam um centavo sequer na bolsa.
Imagino que neste lugar os moradores escolham tão bem as palavras que vão usar que cada conversa acontece com uma cadência lenta e arrastada.
A cidade é tão prudente que meu amigo deixou de ir após receber a informação que as cachoeiras (suposto atrativo do lugar) estavam secas em plena época de chuva.
Se prudência e dinheiro no bolso não fazem mal para ninguém, este pode ser um futuro lugar para eu ir tomar uma canja de galinha.
Pergunto: Prudência é uma virtude ou uma característica dos chatos?
A cidade da prudência deve ser um lugar muito entediante.
Por um lado, os moradores de Prudentópolis certamente não se envolvem em acidentes de trânsito, tampouco acidentes domésticos. Ninguém joga uma bituca de cigarro na rua, não dão uma olhadela para a mulher do próximo, não arriscam um centavo sequer na bolsa.
Imagino que neste lugar os moradores escolham tão bem as palavras que vão usar que cada conversa acontece com uma cadência lenta e arrastada.
A cidade é tão prudente que meu amigo deixou de ir após receber a informação que as cachoeiras (suposto atrativo do lugar) estavam secas em plena época de chuva.
Se prudência e dinheiro no bolso não fazem mal para ninguém, este pode ser um futuro lugar para eu ir tomar uma canja de galinha.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Doa a quem doer...

O limiar de dor é algo pessoal e intransferível. Quando o médico pergunta o quanto dói, numa escala de 1 a 10, trata-se de uma pergunta totalmente subjetiva. O meu 9 pode ser equivalente ao 2 de outra pessoa.
Quando comecei a ter contrações, na 39a semana de gravidez, ao chegar no hospital a enfermeira perguntou de 1 a 10 quanto estava doendo. Respondi 7. Ela ligou uma máquininha, doravante descrita como máquina do inferno e a maldita apontava que eram contrações fracas. Fracas para quem? Certamente a máquina nao sentia nada e a insensível da enfermeira menos ainda; nem empatia ela tinha! Foi com total desdém que ela me avisou que a dor era fraca e que eu deveria voltar para casa.
Não sei se existe um ranking para dor. Acho que sim. No top do ranking, as dores mais famosas seriam a dor do parto, a cólica renal e um belo chute no saco.
Imediatamente abaixo, creio que esteja a dor de dente.
Hoje vou falar da dor de ouvido. Existem dois tipos de dor de ouvido: Uma é a dor física, dói por infecção, por ter entrado água no ouvido, por pressão interna, sei lá, não sou médica e já faz muitos anos que senti esta dor pela última vez. Acho que parte do tratamento era pingar gotinhas de álcool no ouvido.
A outra dor, tenho sentido regularmente. Trata-se daquela dor forte que dá quando ouvimos uma besteira muito, muito grande. Erros de português gritantes, por exemplo.
Dói um pouco quando ouço: se você poder fazer. Dói muito mais quando ouço: se a senhora querer.
Dói um pouco quando ouço: fazem 2 anos ou para mim fazer. Dói muito mais quando ouço: três minuto; todos os amigo aqui reunidos.
Meu ouvido tem doído muito ultimamente. E gotinhas de álcool não são suficientes para aliviar a dor. Haja álcool.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Hospital das bonecas

Quando eu era criança eu ganhava brinquedo três vezes por ano: no meu aniversário, no dia das crianças e no fim do ano. Eu me lembro muito bem que às vezes eu ganhava o presente e às vezes eu ia na loja escolher o brinquedo. Era uma grande satisfação.
Eu me lembro muito bem de um cachorrinho chamado Xodó que latia e pulava ao som de uma musiquinha: lá vem o Xodó, lalalala.
Um dia o Xodó, que ia comigo para todos os lugares, quebrou. Levamos o Xodó para o hospital de bonecas. Foi um pouco frustrante, eu esperava um hospital com leitos, soro, médicos, um lugar onde eu ficaria ao lado do meu Xodó enquanto ele convaleceria de sua enfermidade e não era nada disto. Tratava-se de um balcão que recebia os brinquedos quebrados e em troca a mãe ganhava um papel com um número para depois aprovar ou reprovar o orçamento. Apesar da decepção, o Hospital das Bonecas cumpriu sua função e o Xodó voltou são para casa, embora um pouquinho sequelado. Ele ainda latia, mas não dançava mais. Continuava sendo meu Xodó querido.
Ontem, após cerca de 30 anos, voltei ao Hospital das Bonecas. Fui deixar uma babá eletrônica para ser arrumada após ela ter sido torturada em uma tomada 220V. Desta vez, sob a ótica adulta eu fui menos exigente com o tal do Hospital. O balcão se mantém e a falta de leitos também, mas achei interessante que no canhoto que eles entregam não consta um número de serviço e sim um número de internação. Gostei que eles vendem roupas para bonecas, sapatinhos perdidos de candidatas a Cinderela do mundo dos brinquedos e mantém um silêncio hospitalar. Gostei também que eles tem uma noção de urgência. Babás eletrônicas devem ser colocadas na fila das emergências, pois me foi dito que demoraria 2 semanas somente par ter o orçamento e após um dia eu já tinha o orçamento em mãos.
O meu número de internação era 41.547 e isto me deixou um pouco surpresa com a quantidade de brinquedos quebrados que são levados até lá (ou será que este número é sequencial há mais de 30 anos?).
Foi uma viagem ao túnel do tempo ter voltado lá. E me deu muitas saudades do meu Xodó.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Conversa alheia

Em algumas situações é muito divertido ouvir a conversa alheia. Eu sei que não é muito bonito, mas em público, até dá para fechar os olhos, virar o rosto, mas de vez em quando é inevitável ouvir algumas conversas.
Outro dia, ouvi uma mulher falando ao celular:
"Preciso saber se o enrolado vai para a ilha. Preciso dele e do Dorival que é mais rápido que o Baiano".
Claro que por ser uma conversa ao celular não pude ouvir o que respondia a pessoa do outro lado, mas fiquei pensando: quanto lento deve ser o tal do Baiano para que um sujeito com o apelido de Enrolado seja mais rápido que ele?
O que será que esta mulher quer com o Enrolado na ilha?
Isto é jeito de falar do Baiano? Não me parece politicamente correto!
Acho que a mulher percebeu que eu estava ouvindo tudo e fazendo minhas conjecturas, porque ela levantou-se e foi falar em outro lugar. Que pena, nem deu tempo de saber que ilha era. Ilha Bela, Ilha de Caras, Ilha de edição?
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